IRS em Portugal: guia completo para compreender, entregar e acompanhar a sua declaração
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O IRS (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares) faz parte da vida financeira da maioria dos portugueses. Todos os anos, os contribuintes têm de submeter a sua declaração, perceber se vão receber reembolso ou pagar imposto, cumprir prazos e lidar com conceitos que nem sempre são de fácil compreensão.
Apesar de ser um processo recorrente, todos os anos gera dúvidas: como funciona o IRS, até quando se pode entregar, quanto tempo demora o reembolso, o que significa uma liquidação em processamento, quem tem direito ao IRS Jovem, como pagar o IRS em prestações, entre muitas outras.
Este guia da e-loan foi criado para funcionar como uma base central sobre IRS em Portugal. Aqui encontras uma explicação clara dos principais temas, com enquadramento suficiente para compreender o sistema e, sempre que necessário, ligação para artigos mais aprofundados sobre cada tópico.
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- O que é o IRS e como funciona?
- Como preencher o IRS?
- Qual a diferença entre retenção na fonte e imposto final?
- Qual é o meu escalão de IRS?
- Quando se faz o IRS e até quando se pode entregar?
- Como funciona o IRS automático?
- Como saber se vou receber ou pagar IRS?
- Que despesas entram nas deduções do IRS?
- Quanto tempo demora o reembolso do IRS?
- IRS Jovem: como funciona e quem tem direito
- Trabalhadores independentes e IRS
- Nota de liquidação do IRS: o que é e como obter
- Situações específicas no IRS
- Rendimentos obtidos no estrangeiro
- Como pagar o IRS: prestações ou pagamento único?
- Erros comuns no IRS
- Como corrigir declaração de IRS
- Conclusão
O que é o IRS e como funciona?
O IRS é um imposto que incide sobre os rendimentos das pessoas singulares. Na prática, é o mecanismo através do qual o Estado tributa os rendimentos obtidos ao longo do ano, ajustando depois esse valor através da declaração anual.
Ao contrário do que é muitas vezes assumido, o IRS não é apenas o momento da entrega da declaração. É um sistema contínuo que começa com as retenções na fonte ao longo do ano e termina com a liquidação final feita pela Autoridade Tributária.
De forma simplificada, o funcionamento do IRS assenta em três pilares:
- Os rendimentos obtidos durante o ano (salários, pensões, rendimentos de atividade independente, rendas, juros, etc.)
- As retenções na fonte feitas mensalmente (adiantamentos de imposto)
- As deduções e benefícios fiscais aplicáveis a cada contribuinte
É desta combinação que resulta o valor final: ou há imposto a pagar, ou existe lugar a reembolso.
Como preencher o IRS?
Esta é uma das dúvidas mais comuns entre os contribuintes, sobretudo na primeira vez que se entrega a declaração de IRS ou quando existem alterações na situação pessoal ou profissional.
Embora o processo possa parecer complexo, na maioria dos casos resume-se ao correto preenchimento do Modelo 3 no Portal das Finanças, à escolha adequada dos anexos e à confirmação dos rendimentos e deduções previamente comunicados.
Ao longo desta página explicamos os principais conceitos, e num guia dedicado mostramos como preencher o IRS passo a passo, com exemplos práticos.
Qual a diferença entre retenção na fonte e imposto final?
Muitos contribuintes ainda confundem retenção na fonte com o imposto que efetivamente têm de pagar no final do processo de IRS. Apesar de estarem relacionados, não são a mesma coisa.
A retenção na fonte é um adiantamento mensal feito ao Estado ao longo do ano, enquanto o imposto final resulta do cálculo global após a entrega da declaração, já considerando rendimentos, deduções e benefícios fiscais.
Na prática:
- A retenção na fonte funciona como um pagamento por conta do imposto
- O imposto final é apurado apenas após a entrega da declaração de IRS
- Se reteve mais do que devia, há lugar a reembolso
- Se reteve menos do que devia, terá imposto a pagar
- As deduções (saúde, educação, rendas, etc.) só entram no cálculo final
Qual é o meu escalão de IRS?
O escalão de IRS corresponde ao nível de rendimento coletável em que o contribuinte se enquadra e é determinante para calcular a taxa de imposto a aplicar. Quanto mais elevado for o rendimento, maior tende a ser a taxa marginal de IRS aplicada.
Os escalões são definidos anualmente pelo Estado e organizam os contribuintes por patamares de rendimento, garantindo um sistema progressivo de tributação.
Em termos práticos, o escalão de IRS depende sobretudo de:
- O rendimento colectável anual após deduções
- O número de titulares do agregado familiar
- O regime de tributação escolhido (individual ou conjunto)
- As tabelas de escalões em vigor no respetivo ano fiscal
Compreender o próprio escalão ajuda a perceber melhor porque existe imposto a pagar ou reembolso e permite planear melhor decisões financeiras ao longo do ano.
Quando se faz o IRS e até quando se pode entregar?
Todos os anos surgem as mesmas dúvidas: quando se faz o IRS, até quando se pode entregar, qual é o prazo limite e o que acontece se falhar a data.
Atualmente, o período de entrega da declaração de IRS decorre de 1 de abril de 2026 e estende-se até 30 de junho de 2026, independentemente da categoria de rendimentos. Este prazo aplica-se tanto a quem entrega IRS automático como a quem submete manualmente a declaração Modelo 3.
Entregar dentro do prazo é essencial, porque o incumprimento pode originar:
- Coimas aplicadas pela Autoridade Tributária
- Perda de benefícios fiscais
- Atrasos significativos no processamento e no eventual reembolso
- Necessidade de regularizar a situação através de declaração fora de prazo
Como funciona o IRS automático?
O IRS automático foi criado para simplificar o processo de entrega da declaração, mas não se aplica a todos os contribuintes nem a todas as situações igualmente.
Trata-se de uma declaração pré-preenchida pela Autoridade Tributária, com base na informação comunicada por entidades patronais, bancos, seguradoras e outras entidades.
O IRS automático funciona da seguinte forma:
- A AT disponibiliza uma proposta de declaração no Portal das Finanças
- O contribuinte pode aceitar a proposta sem alterações
- A declaração é submetida automaticamente no fim do prazo caso não haja intervenção
- Aplica-se sobretudo a situações simples (trabalho dependente, pensões, sem rendimentos complexos)
- Nem todos os contribuintes são elegíveis
Como saber se vou receber ou pagar IRS?
Uma das maiores preocupações dos contribuintes é perceber antecipadamente se o resultado da declaração vai ser positivo ou negativo e, de seguida, interpretar a declaração de IRS.
A resposta depende de vários fatores: rendimentos, retenções efetuadas, despesas dedutíveis, situação familiar, benefícios fiscais aplicáveis e eventuais correções feitas pela Autoridade Tributária.
Na prática, existem três cenários possíveis após a submissão da declaração:
- O valor das retenções foi superior ao imposto devido e há lugar a reembolso
- O valor das retenções coincide aproximadamente com o imposto devido e o acerto é neutro
- O valor das retenções foi insuficiente e existe imposto a pagar
Para quem quer simular o resultado antes de submeter a declaração, faz todo o sentido recorrer a um simulador de IRS, que permita perceber aproximadamente quanto poderá receber ou pagar.
Que despesas entram nas deduções do IRS?
As deduções à coleta são um dos elementos mais importantes para reduzir o imposto a pagar ou aumentar o reembolso de IRS. No entanto, muitos contribuintes não sabem exatamente que despesas contam ou como são consideradas.
As despesas relevantes para efeitos de IRS incluem, entre outras:
- Despesas de saúde (consultas, exames, medicamentos, seguros de saúde)
- Despesas de educação e formação
- Rendas de habitação permanente
- Juros de crédito à habitação em contratos antigos
- Lares e apoio domiciliário
- Despesas gerais familiares
- Despesas com ginásios e atividades físicas (com limites legais)
Estas despesas são comunicadas através do e-Fatura e apuradas automaticamente pela Autoridade Tributária, mas devem sempre ser validadas antes da entrega da declaração.
Quanto tempo demora o reembolso do IRS?
O prazo de reembolso é uma das maiores fontes de ansiedade no período pós-entrega da declaração.
Depois de submetida, a declaração passa por várias fases: validação, liquidação, emissão do reembolso e, por fim, transferência para o IBAN indicado. É normal que durante este período surjam estados como “liquidação em processamento” ou “reembolso emitido”, que geram dúvidas em relação ao processo de reembolso.
De forma geral:
- Declarações simples (IRS Automático, sem anexos complexos) tendem a ser processadas mais rapidamente
- Declarações com anexos adicionais, rendimentos no estrangeiro ou correções manuais costumam demorar mais
- Erros na declaração ou divergências podem atrasar significativamente o processo
IRS Jovem: como funciona e quem tem direito
O IRS Jovem é um regime fiscal criado para apoiar a entrada dos jovens no mercado de trabalho, através de uma isenção parcial de imposto nos primeiros anos de rendimentos.
Apesar de muito falado, continua a gerar confusão: quem tem direito ao IRS Jovem, até que idade se aplica, como funciona na prática, como fazer o pedido e como declarar corretamente.
De forma resumida, o IRS Jovem destina-se a jovens que:
- Tenham concluído um ciclo de estudos elegível
- Iniciem rendimentos de trabalho dependente ou independente
- Cumpram os limites de idade e de rendimentos previstos na legislação
- Optem corretamente pelo regime no momento da entrega da declaração
Trabalhadores independentes e IRS
Quem trabalha a recibos verdes enfrenta desafios adicionais no momento de declarar o IRS. As regras são diferentes, os anexos são específicos e existem obrigações que muitos desconhecem.
Para trabalhadores independentes, o IRS envolve:
- Declaração dos rendimentos no Anexo B ou Anexo C
- Enquadramento em regime simplificado ou contabilidade organizada
- Consideração de despesas profissionais elegíveis
- Possibilidade de pagamentos por conta
- Articulação com IVA e Segurança Social
Nota de liquidação do IRS: o que é e como obter
Após a conclusão do processo de IRS, a Autoridade Tributária emite a chamada nota de liquidação. Este documento é essencial, mas muitas pessoas não sabem exatamente o que representa nem onde o consultar.
A nota de liquidação contém:
- O apuramento final do imposto
- O valor de imposto a pagar ou reembolso a receber
- A demonstração de como foram aplicadas taxas e deduções
- O enquadramento legal utilizado no cálculo
É um documento fundamental para quem precisa de comprovar rendimentos, tratar de processos bancários ou simplesmente compreender como foi calculado o IRS.
Situações específicas no IRS
O sistema fiscal tenta adaptar-se à diversidade de situações pessoais e profissionais, mas isso também torna o IRS mais complexo. Existem vários casos particulares que exigem atenção.
Rendimentos obtidos no estrangeiro
Quem trabalhou fora de Portugal, mesmo que apenas durante parte do ano, pode ter obrigações declarativas adicionais. Nestes casos entram em jogo:
- Acordos para evitar dupla tributação
- Declaração obrigatória de rendimentos estrangeiros
- Regras específicas de englobamento
- Necessidade de anexos adicionais na declaração
Casais e tributação conjunta
Casais podem optar entre tributação conjunta ou separada, e essa escolha pode ter impacto significativo no valor final do IRS.
A decisão depende de fatores como:
- Diferença de rendimentos entre os membros do casal
- Número de dependentes
- Tipos de rendimentos obtidos
- Deduções aplicáveis a cada elemento
Este é um tema onde muitas famílias perdem dinheiro por desconhecimento.
Pensionistas
Os rendimentos de pensões têm também regras próprias em sede de IRS, nomeadamente ao nível de:
- Retenção na fonte
- Benefícios fiscais aplicáveis
- Declaração de pensões nacionais e estrangeiras
- Regimes especiais em determinados contextos
Como pagar o IRS: prestações ou pagamento único?
Quando o resultado da declaração é imposto a pagar, surgem dúvidas legítimas sobre como proceder.
O pagamento pode ser feito de forma simples através da referência multibanco emitida no Portal das Finanças, mas existem também situações em que é possível pedir o pagamento em prestações.
De forma geral:
- O pagamento deve ser feito dentro do prazo indicado na nota de cobrança
- O não pagamento dentro do prazo pode gerar juros e penalizações
- É possível solicitar pagamento em prestações quando o valor é elevado ou a situação financeira o justifica
Erros comuns no IRS
Apesar de ser um processo anual, continuam a existir erros frequentes na entrega da declaração de IRS, muitos deles com impacto direto no valor a pagar ou no atraso do reembolso.
Alguns dos erros mais comuns incluem:
- Não validar faturas no e-Fatura dentro dos prazos
- Escolher incorretamente o anexo aplicável
- Declarar mal os rendimentos de trabalhadores independentes
- Omitir rendimentos obtidos no estrangeiro
- Não atualizar corretamente o agregado familiar
- Aceitar IRS automático sem rever os dados
- Ignorar benefícios fiscais a que teria direito
Evitar estes erros é essencial para garantir que o apuramento do imposto é justo e que o processo decorre sem complicações.
Como corrigir declaração de IRS
Mesmo depois de submetida, a declaração de IRS pode ser corrigida. Este é um direito do contribuinte e um mecanismo importante para corrigir erros ou omissões.
A correção faz-se através da entrega de uma declaração de substituição no Portal das Finanças.
É possível corrigir a declaração quando:
- Foram declarados rendimentos incorretos
- Faltam anexos ou dados relevantes
- Existem erros no agregado familiar
- Foram detetadas despesas mal consideradas
- O contribuinte percebe que podia ter optado por outro regime mais favorável
No entanto, é importante ter atenção aos prazos, porque declarações de substituição entregues fora do período legal podem implicar coimas.
Conclusão
O IRS não é apenas uma obrigação anual: é uma componente central da gestão financeira pessoal. Compreender como funciona, quais são os prazos, como interpretar o resultado da declaração e como lidar com situações específicas permite evitar erros, reduzir riscos e tomar decisões mais informadas.